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El Niño a caminho: como o pequeno produtor pode começar a irrigar sem imobilizar o caixa

Órgãos federais apontam mais de 95% de probabilidade do fenômeno no segundo semestre, e a FGV alerta que pequenos e médios são os menos preparados. A saída não passa por um projeto de pivô de milhões: passa por dimensionar certo, começar de forma modular e não errar no material

Órgãos federais apontam mais de 95% de probabilidade do fenômeno no segundo semestre, e a FGV alerta que pequenos e médios são os menos preparados. A saída não passa por um projeto de pivô de milhões: passa por dimensionar certo, começar de forma modular e não errar no material

Existe um desequilíbrio silencioso no campo brasileiro que o El Niño de 2026 vai expor. Guilherme Bastos, professor da Fundação Getulio Vargas e ex-secretário do Ministério da Agricultura, resume assim: pequenos e médios produtores enfrentam mais dificuldades diante do fenômeno do que os grandes, que chegam mais preparados. Não é uma questão de competência. É de acesso a crédito, a seguro e a projeto técnico.

O contexto é conhecido. Em 19 de junho, INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM divulgaram nota técnica conjunta apontando probabilidade superior a 95% de persistência das condições de El Niño no segundo semestre de 2026, com potencial de intensidade forte a muito forte e possibilidade de extensão até o início de 2027. A FGV, pelo professor Eduardo Assad, projeta que um evento forte pode reduzir de 7% a 10% a produção de soja, milho, café e laranja. Para quem tem 4 mil hectares, isso é uma linha na planilha. Para quem tem 40, é o ano.

A resposta óbvia é irrigar. A resposta honesta é que irrigar custa, e que a maioria dos projetos que chegam ao pequeno produtor é dimensionada como se ele fosse grande. Abaixo, quatro decisões que mudam essa conta.

1. O gargalo quase nunca é a bomba. É a linha de condução

Quando o produtor pensa em irrigação, ele pensa em motobomba e em pivô. Na prática, a maior parte do orçamento e quase todo o risco de falha estão na tubulação: diâmetro subdimensionado gera perda de carga, perda de carga exige bomba maior, bomba maior consome mais energia todo mês, e o custo operacional come a rentabilidade que a irrigação foi buscar. Errar o diâmetro na largada é um erro que se paga na conta de luz por dez anos.

“A pergunta que mais recebo é sobre potência de bomba. Quase sempre a resposta certa está no diâmetro do tubo, que ninguém pergunta. Um projeto bem dimensionado na condução costuma custar menos e gastar menos energia do que um projeto que compensa tubo fino com bomba grande”, destaca Thiago Rosa, Diretor Comercial da Asperbras.

2. Começar de forma modular custa menos do que começar certo de uma vez

A crença de que irrigação é um investimento de tudo ou nada é o que mantém boa parte da pequena propriedade no sequeiro. Existe um caminho intermediário: sistemas móveis, que atendem uma área por vez e se deslocam conforme a estação, com tubos unidos por acoplamento mecânico em vez de solda química.

Na prática, isso muda o modelo de negócio do produtor. Ele irriga 30 hectares nesta safra, desmonta, monta em outra gleba na próxima, e só imobiliza capital em estrutura fixa quando o retorno já estiver comprovado no talhão dele, não na simulação do vendedor.

3. Material fora de especificação é o barato que sai caro

Tubo de irrigação trabalha sob pressão, sol e ciclos de montagem. É onde a economia de curto prazo cobra juros. Comprar material certificado, fabricado dentro das normas técnicas do setor, não é preciosismo: é a diferença entre um sistema que roda dez safras e um que rompe no pico da demanda hídrica, que é justamente quando não existe reposição no mercado.

A faixa útil para a pequena e média propriedade costuma ficar entre diâmetros menores de condução e ramais, com conexões fazendo a distribuição. Fabricantes que operam a linha completa, de DN15 a DN500 em tubos e de DN15 a DN150 em conexões, permitem que o produtor compre o sistema inteiro compatível, sem adaptação improvisada entre marcas, que é onde nascem os vazamentos.

4. A janela de decisão é agora, não em setembro

O plantio da safra 2026/27 se concentra entre setembro e outubro. Dimensionar projeto, comprar, montar e testar pressão consome semanas. Quem decide em setembro está decidindo para 2027. Some-se a isso que a demanda por tubulação tende a se concentrar no mesmo trimestre em todo o país, e o cálculo de prazo de entrega passa a valer tanto quanto o de preço.

Vale registrar também o que Bastos aponta como caminho de política pública: seguros paramétricos e mecanismos estaduais para alcançar quem não tem acesso ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) ou a seguros privados, além de mapas de risco articulados entre estados e municípios. Irrigação e seguro não competem. Um reduz a probabilidade da perda, o outro cobre o que sobrar.

Do lado da indústria, o retrato é de um mercado que cresceu de dentro para fora. A Asperbras foi fundada em 1985 por Francisco Colnaghi em Penápolis, no interior de São Paulo, e hoje opera seis plantas industriais em São Paulo, Rio Grande do Norte e Bahia, com capacidade de 60 mil toneladas por ano de PVC e 14 mil toneladas por ano de PEAD.

“Quem começou pequeno entende o produtor que está começando pequeno. O erro do setor foi tratar irrigação como produto de grande escala. Ela é infraestrutura, e infraestrutura se constrói por etapas”, afirma Francisco Carlos Jorge Colnaghi, Vice-Presidente do Conselho de Administração da Asperbras.

A lição que sobra vale além da irrigação e além de 2026. Todo negócio exposto a um risco cíclico enfrenta a mesma escolha: pagar o custo fixo da proteção ou pagar o custo variável do prejuízo. Quem trata a proteção como investimento modular, que começa pequeno e escala com evidência, converte um evento climático em vantagem estrutural. Quem espera o evento para decidir, decide sempre no pior preço e no pior prazo.