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Passageiro passou mal no avião? O que o comissário é treinado para fazer até o pouso

Emergências médicas acontecem em um a cada 604 voos, segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine. Antes de qualquer chamado por um médico, quem atende é a tripulação de cabine, formada para a segurança antes do serviço, com treinos como a imersão na selva

Emergências médicas acontecem em um a cada 604 voos, segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine. Antes de qualquer chamado por um médico, quem atende é a tripulação de cabine, formada para a segurança antes do serviço, com treinos como a imersão na selva

O chamado pelo sistema de som, perguntando se há algum médico a bordo, costuma ser a parte visível de uma emergência médica em voo. Antes dele, a tripulação de cabine já chegou até o passageiro, fez a primeira avaliação e avisou a cabine de comando. Um estudo publicado em 2013 no New England Journal of Medicine analisou 11.920 emergências médicas em voos comerciais registradas por um centro de apoio médico em solo e chegou a uma frequência de uma a cada 604 voos.

Quem faz esse primeiro atendimento é o comissário, e é para momentos assim que a formação da profissão põe a segurança antes do serviço. No CEAB, escola de aviação civil com 27 anos de mercado, a selva é uma imersão para os alunos: em um dia, no centro de treinamento próprio da escola, eles passam pelos treinamentos práticos de combate ao fogo, marinharia e sobrevivência, e aprendem a fazer fogo e abrigo, a usar a bússola e a preparar armadilhas. A lógica é a de manter pessoas vivas e o grupo organizado até a ajuda chegar.

Os números do estudo mostram o que costuma acontecer lá em cima. Desmaio ou quase desmaio responderam por 37,4% dos casos, seguidos por sintomas respiratórios, com 12,1%, e náusea ou vômito, com 9,5%. Passageiros médicos ajudaram no atendimento em 48,1% das ocorrências, e o avião precisou ser desviado em 7,3% delas. Depois do pouso, 25,8% dos passageiros atendidos foram levados a um hospital por equipes de emergência, 8,6% foram internados e 0,3% morreram.

As ocorrências do estudo foram registradas a partir de chamadas feitas durante o voo a esse centro de apoio. Na prática, o atendimento a bordo pode combinar três frentes: a tripulação, que chega primeiro; o profissional de saúde que esteja entre os passageiros; e a orientação a distância, quando a companhia conta com esse serviço.

A legislação brasileira inclui a segurança na definição da função. A Lei 13.475, de 2017, conhecida como Lei do Aeronauta, dá ao comissário de voo a designação de tripulante de cabine e o define como auxiliar do comandante encarregado do cumprimento das normas relativas à segurança e ao atendimento dos passageiros a bordo. A mesma definição inclui a guarda de bagagens, documentos, valores e malas postais. Ao comandante, a mesma lei atribui a responsabilidade pela operação e pela segurança da aeronave, o que inclui, na prática, decisões como a de pousar fora do destino para levar um passageiro a atendimento. A lei regula três profissões, reunidas sob o nome de aeronautas: piloto de aeronave, mecânico de voo e comissário de voo, e, entre os três profissionais, é o comissário quem trabalha na cabine de passageiros.

“Na selva, o aluno aprende que o resgate pode demorar e que alguém precisa manter o grupo de pé até ele chegar. No avião é igual: entre o primeiro sinal e o pouso, quem está ali para agir é a tripulação”, diz Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.

Os primeiros socorros não ficam restritos a esse dia: são um módulo que atravessa todo o curso. A imersão na selva da escola foi registrada em vídeo e mostra o que o passageiro raramente imagina quando vê o comissário no serviço de bordo: uma formação pensada para o dia em que algo sai do roteiro. As imagens trazem a turma em briefing na mata, na prática de fogo e no uso de sinalizador à noite.

“O passageiro vê o comissário no serviço de bordo e acha que o trabalho é esse. A gente forma a pessoa para a hora em que alguém passa mal no corredor, e isso não se aprende só na teoria: se treina com o corpo até virar reflexo”, afirma o diretor.

Para Salmeron, o momento do treino importa tanto quanto o conteúdo. “Ninguém embarca pensando que vai precisar da gente. É por isso que o treino tem que acontecer antes, longe do avião, num lugar em que errar ainda faz parte do aprendizado”, diz.

Do lado de quem viaja, algumas atitudes ajudam a tripulação. Avisar os comissários ao primeiro sinal de mal-estar, em vez de esperar melhorar, dá mais tempo para a avaliação. Informar doenças preexistentes e remédios de uso contínuo facilita o atendimento, e manter esses medicamentos na bagagem de mão evita que fiquem fora de alcance durante o voo. E, se houver um profissional de saúde viajando, apresentar-se à tripulação assim que o chamado for feito ajuda a ganhar tempo.

A cena do médico que se levanta da poltrona costuma ficar na memória de quem estava no voo. A de quem chegou antes dele, quase nunca. Se é a tripulação de cabine que responde primeiro quando alguém passa mal no ar, quanto o passageiro sabe sobre a formação de quem está ali para atendê-lo?